Minha jornada pessoal contra um ardiloso bigodinho.
Não quero parecer saudosista, mas na época em que éramos apenas bebês a coisa era melhor. Nossas únicas preocupações eram dormir, chorar e lentamente encarar a assustadora vastidão do desconhecido.
Ser criança (período logo após a nossa fase bebê) também era bom. A gente se machucava com mais frequência, mas pelo menos ria de tudo. O problema da vida como um todo é quando chega a adolescência.
Aos meus 14 anos eu estava naquele processo de deixar de ser uma criança para me tornar uma criatura de aparência não-humana, espichada e com o rosto oleoso ao ponto de poder fritar um pequeno pastel. Se você foi uma pessoa bonita no começo da adolescência, saiba que eu e todos os leitores deste blog, por enquanto, não confiamos em você.
A pior parte dessa fase é a incerteza do que seu corpo vai aprontar com você no dia seguinte. Uma espinha? Um cheiro que você nunca teve antes? Nunca sabemos, é a roleta-russa dos hormônios. No meu caso, fui contemplado com uma pequena penugem sob o meu nariz.
Não chegava a ser um bigode, mas também não era algo que passava despercebido. Era um meio-termo triste chamado “Bigode Ralinho”. Sabe aquele momento em que uma girafa está tentando andar pela primeira vez? É como se fosse isso, mas na versão bigode.
Eu estava exausto de caminhar a largos passos para uma aparência cada vez mais feia que queda de moto em dia quente. Era hora de tomar uma atitude.
Antes de pegar a lâmina de barbear, resolvi dar uma olhada em um fórum sobre barbas. Lá tinha um cara contando uma experiência em que ele sem querer cortou a jugular. Aí não tinha mais como, né? Como que eu iria raspar aquele bigode com a cabeça tranquila sabendo que qualquer deslize poderia me degolar?
Além disso, falavam que ao giletar ele nasceria mais grosso. Ou seja, ele voltaria mais forte e eu não estava psicologicamente preparado para essa guerra. Era hora de tomar medidas drásticas e daquela noite não passaria. Decidi fazer uma depilação.
Eu tinha aquela panelinha de cera quente em casa? Não tinha. Eu tinha algum conhecimento no assunto para realizar a tarefa por conta própria? Não tinha. A única coisa que eu tinha ali era a motivação. Na minha cabeça o briefing era simples: você cola algo nos pelinhos e depois puxa. Não tem mistério.
Foi aí que peguei um Durex.
Se o seu primeiro instinto ao ler isso foi imediatamente começar um pré-julgamento do tipo “que jegue, isso não dá certo”, saiba que você tem toda razão. Se fita adesiva funcionasse, o que mais teríamos na cidade seriam estabelecimentos com fachadas dizendo “Papelaria & Depilação”. Infelizmente eu era jovem demais para entender isso. Eu puxava e colava o durex várias vezes (sem sucesso) no meu bigode. Meio abatido fui dormir com o peso da derrota em minhas costas.
No dia seguinte acordei sem nem pensar nisso. Segui minha rotina matinal normalmente até o momento em que olhei no espelho e descobri que cometi um grande erro. A pele estava toda machucada e com uns buracos aleatórios no meio do bigode que já era falho. Parecia que ele tinha sofrido uma pequena explosão bigódica. Vendo aquilo eu passei a sentir falta de como estava antes.
Eu tinha um belo trouxel acima de meus lábios e agora restava um terreno baldio mal capinado.
Após alguns dias, fui a um centro de depilação para terminar o serviço. Foi quando descobri que a dor da depilação era muito maior do que perder uma jugular inteira e passei a me barbear como uma pessoa normal.
Hoje evito chegar perto de qualquer fita adesiva sempre que possível. Assim como vítimas de ataques de tubarão que voltam para o mar, eu respeito os rolos de durex.
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